Posts com Tag ‘cerâmica’

Ator desconhecido

fevereiro 28, 2010

Ontem, visitei a 17 Paralela. Conheci um grande ceramista Nerivaldo Moreira Mota, o Nelinho como gosta de ser chamado. Muito atencioso me deu uma aula de cerâmica e respondeu todas as perguntas de uma curiosa aprendiz. Contou passo a passo o processo de produção de uma peça e mostrou em sua máquina as fotos de suas novas criações. Habilidoso, modela desde os 10 anos em Maragogipinho, grande centro de cerâmica a 80 km de Salvador. Aprendeu a arte com sua mãe, como poucos hoje ousam fazer. Esperto percebeu a necessidade de inovar e das travessas e jarros tradicionais passou para os lustres, pias, mandalas… Fiquei admirada com sua habilidade criativa e sua capacidade de comunicação. Ingredientes importantes para se destacar dentre tantos artistas anônimos. Mas ele é mais um. Mais um que não assina suas peças e perde sua obra nesse mundão até que outro a ache e a nomei. Como já acomteceu. Fui enfática na recomendação não só da assinatura mas também discriminação da origem. Não sei se o convenci. Afinal sou uma desconhecida sem nome nem procedência.

Cerâmica Maragogipinho BA - foto do folder Sala do Artista Popular CNFCP

Gira, gira Fabio Smith

agosto 12, 2009

Depois que você começa a modelar o barro, passa a olhar de um outro ângulo as peças de outros ceramistas. Você admira, mas logo se pergunta como fez, como conseguiu aquela cor, de onde tirou aquela idéia, será que é modelagem manual ou torno… Você quer aprender com aquele artista. Você quer compartilhar. A sua apreciação deixa de ser apenas contemplativa e ganha uma boa pitada de porquês. Uma necessidade absurda de ter o autor por perto te domina. Você quer desvendar os mistérios, quer dividir. 

Nas visitas recentes que fiz ao ateliê de J.Borges ou a oficina de Brennand, me vi em muitos momentos desejando ser surpreendida com achegada deles.  Já não sei se cruzei Brennand ou foi uma miragem. Aquele homem de longas barbas brancas entrou naquela porta e sumiu? 

Quando vi peças de Fabio Smith, o movimento me intrigou.

 

Casal Coco de Roda - Artista Fabio Smith. Foto de seu site www.fabiosmith.com

Casal Coco de Roda - Artista Fabio Smith. Foto de seu site http://www.fabiosmith.com

 

Por que quando pintamos ou modelamos queremos registrar um momento único, estático? Como se fosse uma foto pousada. Se fazemos o balanço do corpo do casal, a cena que você vê não para ali. Ela segue. Você consegue ver o vai e vem. A peça está viva. Você imagina como é a música que eles estão dançando. Sente a força do abraço.

 

 

Namorados - obra de Fabio Smith. Foto do site do artista www.fabiosmith.com

Namorados - obra de Fabio Smith. Foto do site do artista http://www.fabiosmith.com

 

E canta a morte do boi: “O meu boi morreu, que será de mim? Manda buscar outro, Ô maninha, lá no Piauí”.

 

Boi de Reis de Fabio Smith. Foto do site www.fabiosmith.com

Boi de Reis de Fabio Smith. Foto do site http://www.fabiosmith.com

 

Estou admirada com o trabalho desse artista. Registros vivos de nossa cultura. Um dia ainda visito seu ateliê com direto a bate bola com o ceramista.

Os ares do Alto Moura – Pernambuco

julho 21, 2009

Artesanato é hoje uma fonte de renda, o que é muito bom! Mas isso não garante que novos mestres surjam. A genialidade de um mestre não pode ser aprendida. Sua criatividade, inspiração e inventividade brotam naturalmente e nem sempre são herdadas.

Andando pelo Alto Moura (a 7 km de Caruaru/Pernambuco), vemos os antigos mestres cederem espaço aos novos artesãos. 

 

Lojinhas 1 Alto Moura

 

Lojinhas 2 - Alto Moura

 

Lojinhas 3 - Alto Moura

 

Mas a originalidade das peças não tem se renovado na mesma velocidade. Muitas namoradeiras e neguinhas malucas se multiplicam. Todas semelhantes com aquelas que vi há alguns anos atrás em Ouro Preto. A reprodução é mais acessível, a criação é para poucos.

 

Bonecas - Alto Moura

 

Ainda dá para sentir sobros de criatividade pelo ar. O Memorial Mestre Galdino guarda peças que rompem qualquer referência, surreais e fantasiosas dividem lugar com alguns poucos versos do ceramista. Admirável organização em tão pequeno porém rico espaço.

 

Mestre Galdino a eterna vanguarda

Mestre Galdino a eterna vanguarda

 

Ao contrário da Casa de Mestre Vitalino que reune pouquíssimos objetos pessoais. Suas obras estão espalhadas por esse Brasilzão.

 

Casa de Vitalino, hoje museu. Na porta seu filho, Severino, recebe os convidados

Casa de Vitalino, hoje museu. Na porta seu filho, Severino, recebe os convidados

 

Temos que registrar e repassar a história daqueles que ainda têm muitas lembranças a contar. Severino Vitalino estava recebendo os convidados na porta da antiga casa de seu falecido pai. Mestre Vitalino completaria, este ano, 100 anos e é homenageado na Festa de Junina de Caruaru. Severino também é ceramista. Faz questão de afirmar que copia o estilo de moldar de seu pai, percussor da arte figurativa. Nas mãos de seus descendentes pulsa o legado de Vitalino e em cada peças um registro do jeito nordestino de viver. Assista Severino no vídeo http://www.youtube.com/watch?v=VZwads6x8xM&feature=related

 

Ateliê família Vitalino

 

Mais adiante está Emerson, neto de Zé Caboclo. Sua família preserva a tradição. Num pequeno ateliê se revezam. O importante é manter a atmosfera criativa de onde podem brotar novos talentos e manter a força da grife que carregam como sobrenome. 

 

Ateliê família Zé Caboclo

 

Elias Francisco do Santos divide o espaço da loja com algumas peças de linha de produção (namoradeiras, neguinhas…). Como ele mesmo diz “Meu estilo é outro, gosto de bicho, de pescador e de vaqueiro”. Viva a diferença. Ele, que se auto nomeia o primeiro aprendiz de Vitalino – há controvérsias – mantém a memória ativa e relembra alguns fatos desses 70 anos de cerâmica. 

 

Mesa de trabalho do Elias Santos

Mesa de trabalho do Elias Santos

 

Frescor também se encontra no ateliê/loja Luis Antônio. Retratar o povo de sua terra não é óbvio. Eu garanto. Já se sintou um estrangeiro em seu próprio país?

 

Bóias-frias de Luis Antonio Silva

Bóias-frias de Luis Antonio Silva

 

Há que peneirar o joio do trigo. Mas o importante é que o Alto Moura permaneça um grande centro de arte figurativa apesar da pausterização que já chegou por lá. A inspiração e o DNA dos grandes mestres andam soltos. Vá se costipar!!!!!

De onde vem a inspiração?

julho 13, 2009

 

Andar pela Oficina Brennand (Recife/PE) me inspira. 

Será mesmo que nada se cria?

 

 

Templo Brennand

 

 

A textura das cerâmicas me provoca. 

Por que teimo em alisar o barro? 

 

 

Cabeça gigante - Brennand

 

 

Os marrons de vários tons

Os verdes azulados 

Os azuis esverdeados

Tento descrever as cor.

 

 

Moringas - Brennand

 

 

A grandiosidade das peças me intriga. 

Onde estão os por quês e os como? 


 

Escultura Gigante - Brennand

 


E imaginar que retas podem fazer curvas.

E curvas, retas.

 

 

Curvas e retas - Brennand

 

 

O barro grava o que o vento não leva.

 

 

Letras no barro - Brennand

 

 

Levo uma caixa de lápis nas mãos.

 


Lápis na mão - Brennand
 

Quero um jardim de esculturas.

 

 

Jardim de escultura - Brennand

 

 

É preciso expirar para inspirar. 

Engolir para vomitar.


De onde vem uma idéia? Do nada?


É claustrofóbico pensar que estamos presos a referências.

Tudo se torna.


Será que algum dia vou criar? 

Romper com os exemplos

Com as cópias, com os modelos

Com o certo, com o manual

Com o belo, com o magro

Com o limpo, com a reta

 


Oficina Brennand

Propriedade Santos Cosme e Damião s/n

Várzea – Recife/PE

http://www.brennand.com.br

 

 

 

Belo livro

maio 13, 2009

 

Livro Ceramistas de Coqueiros - histórias de vida - Artesol

Livro Ceramistas de Coqueiros - histórias de vida - Artesol

Fui, há um mês atrás, no lançamento do livro Ceramistas de Coqueiro do Artesanato Solidário na sede da organização. Adorei a publicação, cheia de aspas das artesãs. Ao ler me senti mais próxima da alma dessas mulheres e passei a admirar ainda mais seu trabalho.

Recomendo a leitura, principalmente, para que desperte em você a necessidade de sempre saber mais sobre a história das peças que cruzarem seu caminho. Grande parte do significado desses objetos está na sua história. Não perca a chance de conhecê-la.

Zezinha vai longe

maio 13, 2009

Desde que vi algumas imagens das bonecas de Zezinha em livros de arte popular me impressionei muito com seu trabalho, especialmente, com o olhar penetrante de suas bonecas. Decide então viajar até o Jequitinhonha para conhecê-la em julho de 2008. Que experiência de vida eu tive naquele dia. Mas isso é história para um novo post. Preciso consertar meu notebook e resgatar as anotações daquela viagem. Aguardem.

Ai está ela, sorridente como sempre. Bela foto de André Côrrea.

Ai está ela, sorridente como sempre. Bela foto de André Côrrea.

Quando a encontrei, numa casinha bonita no meio do Vale, confirmei minha expectativa: essa ceramista vai longe. Tropecei com ela outras vezes. Numa exposição do Vale no Museu Casa do Pontal RJ em janeiro deste ano; na Galeria Estação São Paulo onde encontrei um casal de noivos a venda por R$ 2.8 mil; no lounge da TAM, decorado pelo Rugiero da Galeria Brasiliana, na 26 edição do SPFW em janeiro também. Realmente, essa mulher é uma inspiração. Por isso, comprei um lindo casal de cerâmica feito por ela que fica namorando, todos os dias, na sala da minha casa. Eles são minha fonte de energia e motivação. Ainda escreverei muito sobre ela. Espero que esbarrem com suas peças por ai também. Que deleite!

 

Uma de suas maravilhosas bonecas

Uma de suas maravilhosas bonecas. Mais uma bela foto de André Côrrea.

Leiam o que Rugiero declarou a seu respeito no site www.maxpressnet.com.br: A ceramista Zezinha criou uma nova estética para as bonecas do Jequitinhonha e, na visão de Rugiero, hoje é a principal artista dessa região. “Suas mulheres altaneiras, sensuais e que parecem estar vivas, são um dos pontos da arte popular brasileira atual”.

Tenho que aproveitar meu faro, ele não está tão ruim assim.

Observação: entrem no blog do André Côrrea, ela narra e mostra lindas fotos do vale. O post que conta mais sobre a Zezinha é um deles http://aterra.wordpress.com/2008/12/05/dona-zezinha-o-vale-do-jequitinhonha/

Reconhecer o autor é respeitar sua história – continuação

maio 9, 2009

Em outra aula de cerâmica, contei para Beth a história de Zezinha, que até pouco tempo atrás não assinava as suas peças (ver post anterior Reconhecer o autor é respeitar sua história). Ela me contou que em Goiás, há um pintor e ceramista muito talentoso Antônio Poteiro. Ele também não assinava suas produções. Um dia certo alguém veio o alertar que em Goiás uma pessoa estava assinando suas obras e vendendo-as como se fossem suas. Inacreditável! Que crueldade. Poteiro, finalmente, depois de por muito tempo insistir que não era preciso autenticá-las, passou deixar sua marca, agora inconfundível. 

 

Antonio Poteiro ceramista e pintor - Goiânia/Goiás

Antonio Poteiro ceramista e pintor - Goiânia/Goiás. Foto da flickr de Kell Motta http://www.flickr.com/photos/kellmotta/

Eu não conhecia mestre Poteiro, mas na web foi fácil encontrar informações a seu respeito. Admirem suas brilhantes criações www.antoniopoteiro.com

Uma lição

abril 26, 2009

 

Grande mestre Isabel Mendes da Cunha (Santana do Araçuaí. Foto do livro acima, publicada no site da revista Conceito A

Grande mestre Isabel Mendes da Cunha (Santana do Araçuaí. Foto do livro "Caminhos da Arte Popular" de Angela Mascenali e publicada no site da revista Conceito A

 

Por que você não cobra por esse barro?

 

“Porque foi Deus que me deu e é para nós todos! É uma benção de Deus essa chacrinha que eu comprei.” Amadeu Mendes Braga (filho de Isabel Mendes da Cunha – foto – um dos poucos ceramistas homem) – Santana do Araçuai

Fonte: Livro “Caminhos da arte popular – o Vale do Jequitinhonha” Angela Mascenali

Um pedaço de barro

abril 26, 2009

Hoje, comecei minhas aulas de cerâmica. Sempre admirei essa arte e tive vontade de aprendê-la. Já estava namorando, há algumas semanas, um ateliê. Sem programar, 30 minutos antes da aula começar, liguei para lá e decide iniciar naquele dia mesmo.

Foram 3 horas de profundo relaxamento. A sensação de mexer com o barro é muito boa. De jogá-lo contra a superfície dura do ferro ou amassá-lo como pão. Depois apertá-lo dando forma e alisando-o com um pouco de água. Sua temperatura, sua textura, seu peso, sua ausência de forma, suas inúmeras possibilidades. 

A liberdade diante de um pedaço de barro, amedronta nós, adultos, vítimas da censura que os anos nos trouxeram. As crianças, como relatou Beth, pegam um pedaço de barro, furam, apertam, não pensam. Agem livremente e criam, sem referências, vícios ou receios. Nós, antes de tentar desenhar, dizemos “Não sei desenhar”. Precisamos de um livro de referências, para nos inspirar. Na verdade, queremos algo para copiar, não conseguimos criar. Nos temos medo diante do barro, medo de quebrar, medo de não conseguir, medo de ficar feio, medo…Nossos padrões nos limitam. O menino pequeno não. Ele pega um pedacinho de barro e fala que é um hipopótamo e coloca um menorzinho do seu lado e diz que é seu filhinho. 

Por isso, quando Beth me perguntou se eu já havia feito aula alguma vez na vida, e eu disse que a última vez que havia pego uma argila na mão tinha sido no colégio. Ela comemorou “Essa é a melhor coisa. Vamos resgatar essas motivações do passado”.

Para mim a aula foi uma espécie de meditação. A mente se acalmou e se concentrou numa só atividade. Que luxo! 

É importante dar tempo para nossas paixões. É através delas que nos reconhecemos verdadeiramente. Que sentimos prazer e satisfação. Perdi a conta de quantas vezes na aula disse “Que gostoso”. 

As aulas serão uma grande aventura. E já estão iluminando meus caminhos.


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